POR Jazz.pt, Rui Eduardo Paes (dec.2014)

Do que é que se trata, pergunta este disco? Bom, à partida de mais um episódio das continuadas colaborações com o baterista e compositor português João Lencastre de músicos de topo da cena de Nova Iorque como David Binney, Phil Grenadier, Jacob Sacks e Thomas Morgan, seja no seio do grupo Communions como nos B-Sides. Mas há mais que se diga a propósito: este álbum em que também ouvimos André Matos como membro do sexteto e as contribuições de Tiago Bettencourt, Sara Serpa e Benny Lackner será aquele, da discografia Communion, em que mais transparece o gosto de Lencastre pelas formas abstractas e que consolida as coordenadas chave (confirmando-as ou acrescentando-lhes consequências) do projecto.
É certo que a escrita consegue ser um tanto ou quanto maneirista, com volteios e torcidos dispensáveis, é certo também que o peso da composição impede que a improvisação faça a música levantar voo, mas também é verdade que são as próprias estruturas que introduzem surpresa, como se uma nova flor se encontrasse depois de retiradas as pétalas exteriores, e que uma boa parte do agrado causado pelos nove temas (sete de Lencastre, um de Matos e uma partitura de Brahms) deriva do trabalho realizado em torno das melodias. E ainda de como o ritmo faz com que tudo pulse, com a irrequieta bateria do líder a picar e furar por dentro. Gostei.
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