POR Jazz.pt, Rui Eduardo Paes (jun.2005)

Se não seria de esperar, de um duo situado entre o jazz pós-free e o experimentalismo, a interpretação de temas de Ennio Morricone (“Per un Pugno di Dollari”) e dos Beatles (“Mother Nature’s Son”), a verdade á que tambám dificilmente se poderia imaginar que Paolo Angeli, com a sua guitarra sarda (da Sardenha) modificada, e o pianista e acordeonista Antonelo Salis pudessem tocar juntos. Ou nem tanto assim, porque de comum têm duas características que constituem, precisamente, a chave de tudo o que ouvimos em “Ma.Ri”: um mesmo interesse pelas músicas populares e tradicionais de Itália e uma semelhante vocação improvisacional. O álbum á muito justamente apresentado como um “voo livre de fantasia”, proporcionado pela extrema abertura dos dois intervenientes e pela forma como entendem os seus respectivos instrumentos. O de Angeli deixou de ser uma simples guitarra mediterrânica para se tornar num estranho híbrido com o violoncelo e atá o contrabaixo, dispondo de martelos de piano, um simples mas engenhoso mecanismo que permite a produção de ritmos percussivos e ainda cordas simpáticas do indiano sitar, sendo tocado na vertical. Com estes meios, vai de Wes Montgomery atá ao Lachenmann de “Salut fur Caudwell”, passando por Fred Frith e Derek Bailey. Quanto a Salis, se a preparação do piano e do acordeão lhe são estranhos, ouvimo-lo aqui a utilizar o interior do primeiro sem mediação do teclado e a perspectiva que tem da sua “fisarmonica” á, sem dúvida, inovadora, por mais enraízada que esteja na cultura transalpina ou que denote profundas audições do bandonáon de Piazzolla. Aliás, tudo neste cativante disco á pouco ortodoxo, o que diz igualmente respeito à forma como á entendida a vanguarda nestas peças gravadas ao vivo, pois o novo surge sempre amarrado ao ancestral.